DIÁRIO DE PERNAMBUCO – 4/9/1916 – Pela Pecuária,

(transcrição da notícia do jornal)

Chegada  dos primeiros IRCA  em Recife, PE.

A bordo do vapor Itatiba, da Companhia Lage, chegou hontem ao Recife a partida de gado de que fallamos há dias, comprada no Triangulo Mineiro pelo Sr. coronel Carlos Lyra, com destino a sua fazenda Varzea Bonita, em Alagoas: cerca de quarenta rezes, puro sangue, das raças Gouzerat e Nellori, tendo em média a idade de 2 annos e meio.

Segundo informações fornecidas pelo Sr. Reinaldo Delgado da cidade do Porto, Portugal, o navio “ITATIBA” foi construído na Escócia, pelo estaleiro R. & W. Hawthorn Leslie, de Newcastle-upon-Tyne, sendo terminado em Janeiro de 1891.

Recebeu inicialmente o nome “Mossoró”, para a Companhia Nacional de Salinas de Mossoró Assu, com registo no Rio de Janeiro. A partir de 1893 alterou o nome para “Itatiba”, agora da propriedade da Companhia Nacional de Navegação Costeira, também do Rio de Janeiro.

Era um navio pequeno com 62,50 metros de comprimento, por 9,50 metros de largura, com uma arqueação de 812 toneladas. O navio foi dado como desaparecido, depois de ter sido visto ao largo da antiga colónia portuguesa de São Tomé, em 18.04.1919.

Afora os bovinos, veio uma parelha de jumentos italianos, também puro sangue, no valor de 6 contos de réis.

Tendo partido da villa de Conquista (Minas) no dia 12 do mez findo, esse gado contava até hontem 22 dias de viagem, sendo 15 por mar, contados de Santos, onde se effectuou o embarque, até o Recife, com escala pelos portos de Rio e Victoria.

A viagem, penosa para os animaes devido à morosidade inherente à marcha d’um vapor cargueiro, correu, todavia, sem incidentes, havendo apenas a registrar o nascimento a bordo, no dia 23, da bezerrinha que figura na photographia abaixo estampada.

Na falta de uma imagem do ITATIBA, publicamos uma imagem do Navio à vapor Itapuhi para que os leitores possam conhecer um desses navios que foram os "Itas" que muito contribuiram para o desnvolvimento do Brasil. Imagem tirada do blog "Portogente" editado pelo Sr. Laire José Giraud.

Na falta de uma imagem do ITATIBA, publicamos uma imagem do Navio à vapor Itapuhi para que os leitores possam conhecer um desses navios que foram os "Itas" que muito contribuiram para o desnvolvimento do Brasil. Imagem tirada do blog "Portogente" editado pelo Sr. Laire José Giraud.

Por gentileza especial da “Societé”, e dos srs. capitão commandante do Porto e médico da saúde, e bem assim pela boa vontade dos agentes da companhia proprietária do navio, foi permitido que este atracasse ao cáes da praça Rio Branco, em frente à Associação Commercial, o que se effectuou às 10 horas sob a direcção do prático sr. Luiz de Souza Gomes.

Imagem de um outro "Ita" o navio ITAJUBÁ - Portogente, por Laire José Giraud

Imagem de um outro "Ita" o navio ITAJUBÁ - Portogente, por Sr. Laire José Giraud

O “Itatiba”, que tem por commandante o sr. capitão F. Deal, e immediato o sr. Manoel do Carmo Sampaio, foi o primeiro vapor a acostar ao cáes, em frente à cidade, inaugurando assim effectivamente o novo porto do Recife. O commandante F. Deal, em presença do sr. José Galvão, agente interino da companhia na ausencia do coronel Alberto Rebustillo, fez registrar no livro de bordo essa circunstância.

Foram passageiros do vapor, acompanhando o gado até aqui, o sr. coronel Wirmondes Martins Borges e dois irmãos seus, proprietários da fazenda Cascalho, principal vendedora do lote.

Apezar da grande massa de curiosos que se agglomerou na praça Rio Branco e adjacencias, attrahida pela novidade do primeiro navio alli acostado, o desembarque effectuou-se sem incidentes, graças ao policiamento feito no local por um piquete de cavallaria e uma pequena força de infantaria policial.

Da direita para esquerda: Sr.Wirmondes Martins Borges com o laço na mão, seu primo Otaviano, o Indú Norimá Katarvalla com seu filho, e Josias Ferreira. Foto gentilmente cedida pelo Museu do Zebú, Uberaba, MG.

Da direita para esquerda: Sr.Wirmondes Martins Borges com o laço na mão, seu primo Otaviano, o Indú Norimá Katarvalla com seu filho, e Josias Ferreira. Foto gentilmente cedida pelo Museu do Zebú, Uberaba, MG.

O serviço correu sob a direção do coronel Virmondes Borges, auxiliado gentilmente pelo sr. J. Moreira Filho, representante do coronel Soares Raposo, proprietário dos grandes cercados de Afogados, afóra o commandante Deal e o sr. agente da companhia, que muito concorreram para a boa ordem do mesmo.

Da praça Rio Branco foi o gado transportado para a estação do Brum, onde o esperava um comboio fretado especialmente para o seu transporte à Uzina Serra Grande, em Alagoas.

A partida do Brum, effectuou-se às 2 horas, tendo seguido em carro atrelado ao referido trem, o sr. coronel Carlos Lyra, o coronel Virmondes, o sr. Adolpho Borges e sr. Julio Borges, parente dos mesmos fazendeiros, que os acompanhou até aqui.

Pelo sr. commandante Deal foi baptisada com o nome de “Itatiba” a bezerrinha que nascera a bordo.

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Uzina Serra Grande – Abril 1918 – Carlos B. P. de Lyra

(transcrição do texto do livro – Notas de Viagem)

Notas de viagem

(Apontamentos sobre a criação do legítimo gado zebú no Triângulo Mineiro e a vantagem de sua introdução no norte do Brasil – Breve excursão ao sul do Brazil e republicas limitrophes. Composto em machina Linotype – Officinas Graphicas do DIÁRIO DE PERNAMBUCO – Recife – 1918)

Ao Leitor

A publicação destas notas não tem outro intuito se não o de chamar a atenção da laboriosa classe dos lavradores e criadores do Norte, a cujo numero me ufano de pertencer, para o problema da pecuária até hoje tão descurado nesta parte do Brasil.

A introdução racional, entre nós, do legítimo gado zebu, que tão esmagadoras provas de superioridade está oferecendo no Triângulo Mineiro, afigura-se-me o meio mais prático de elevar os estados do norte ao nível de prosperidade que devemos almejar não somente para nós, num futuro próximo, como para as gerações que nos succederam.

Em carta que recentemente me dirigio pelo “Diário de Pernambuco”, o illustre sr. dr. Ezequiel Ubatuba, um competente neste assumpto, faz sentir a necessidade em que nos encontramos de apoiar na industria pastoril o nosso labor agrícola, na previsão d’uma crise possivel para a nossa industria assucareira, com o termino da guerra.

Sou, por minha parte, um convencido de que, com o restabelecimento da concorrencia mundial, a nossa industria assucareira, ainda insufficientemente apparelhada por diversos motivos e circunstancias, terá de enfrentar uma crise, talvez mais dura e prolongada que as anteriores. Devemos, portanto, estar preparados paa compensar o esforço, que em outras epochas temos perdido, com os fructos seguros e de probabilidades muito mais lisonjeiras da industria pastoril.

Meditem os homens do Norte neste assumpto, especialmente os que produzem e trabalham nos campos desde o littoral até os mais remotos sertões — e, estou certo, acabarão concordando comigo.

É esta a minha esperança; e nem mais valioso fucto espero para a modesta propaganda a que venho dedicando desde algum tempo uma parte da minha actividade de homem do campo, habituado desde a infancia a ver no aproveitamento da trra immensa e bemfadada que Deus nos concedeu a base indestructivel e eterna da prosperidade do Brasil.

Triângulo Mineiro

Foi em Caxambú, numa palestra entre viajantes sob as arvores do pittoresco parque d’essa famosa estancia d’aguas sul-mineira, que tive a fortuna de travar conhecimento com um dos mais abastados criadores d’aquelle grande Estado: o major Carlos Alves Salgado, de Santa Rita de Cassia.

Typo de homem simples, sincero, e camaradeiro, desvelado e enthusiasta pelas cousas de sua terra como o são, em regra, os mineiros de bôa tempera, o major Salgado foi dos primeiros a fallar-me da grande e prospera zona chamada o Triangulo Mineiro, um dos mais pujantes e futuros centros da pecuaria nacional.

Foi elle quem melhor e mais eloquentemente me fallou do formidavel impulso que vae tomando a criação do gado n’aquella zona, da riqueza de suas terras e generosa hospitalidade do seu povo.

Acceitando o seu bondoso convite tive, poucos dias depois, as mais inequívocas provas da proverbial hospitalidade mineira, na captivante acolhida que me dispensaram, na sua importante fazenda em Santa Rita de Cassia, aquelle distincto amigo e sua exma. familia.

Santa Rita que é das mais interessants cidades do sul do Estado, acha-se ligada por uma boa estrada de automoveis e linhas telephonicas às cidades de Franca, ao sul, e S. Sebastião e Paraizo, ao norte.

Tem bons estabelecimentos commerciais, um jornal, duas pharmacias e dois medicos estabelecidos. Praças ajardinadas, boa illuminação e vivendas confortáveis. Nas ubertosas terras do municipio ficam situadas numerosas fazendas de criação, algumas verdadeiramente ricas como a importante fazenda “Agua Limpa”, do major Salgado e outras.

Fallo d’essa minha primeira excursão ao Triangulo Mineiro com uma impressão tanto mais grata quanto o percurso era então inteiramente novo a deleitar-me a curiosidade do forasteiro.

A cidade de Cruzeiro, localisada à margem esquerda de Parahyba do Sul, em território do Estado de S. Paulo, é uma das mais importantes estações da E. F. Central do Brazil, na linha S. Paulo – Rio.

Alli entronca a rêde de estradas de ferro “Sul Mineira” que, com os seus diversos ramaes, serve a importante região sul do Estado de Minas até Tuyty ou Montebello, a ligar com a “Mogyna” que se estende pelo norte de S. Paulo, formando ambas um total de 5.000 kilometros de linhas em trafego mutuo.

É, pois, em Cruzeio que os frequentadores das aguas mineraes de Caxambú, Cambuquira, Lambary e outras deixam os luxuosos wagons da Central pelo modesto trem da Sul-Mineira, que a poucos kilometros d’alli, começa a galgar vagarosamente a megestosa serra da Mantiqueira, rainha das “alterosas montanhas” do grande Estado.

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DIÁRIO DE PERNAMBUCO – 4/9/1920  – Pela Pecuária, Visita a Sociedade Rural

De passagem por esta capital, visitou a Sociedade Rural o abastado fazendeiro pernambucano, sr. coronel Carlos Lyra, proprietário do “Diário de Pernambuco” e de usinas de assucar e fazendas de criação naquele Estado, acompanhado do tenente-coronel Avelino Silva, negociante e capitalista também no mesmo Estado.

O coronel Lyra, referindo-se às industrias do seu Estado, declarou que o assucar actualmente registra lucros nunca conhecidos mas que, com o desenvolvimento que observou nas zonas norte de S. Paulo e sul de Minas, onde já existem diversas usinas e fábricas do producto, lhe parece que, quando se desenvolver a immigração, sendo preferida a zona do sul pelos europeus, trará então a industria assucareira tal desenvolvimento que abastecerá todo o mercado do sul do paiz, e, então, os productores de assucar do norte terão que competir com a beterraba e com a canna nas Fillippinas e em Cuba.

Disse mais, que é tal a sua convicção que há já três annos que se occupa com a pecuaria, tendo estabelecido em as suas propriedades no Estado de Alagoas a criação do gado, sendo uma de gado puro indiano, outra de mestiços, dessa raça com caracu hollarle etc., e a terceira, de gado crioulo, exclusivamente.

Computando suas notas e apontamentos, verificou no ultimo anno que a raça crioula teve uma natalidade de 57% sobre 7,5% de mortalidade: os mestiços subiram a 82% de natalidade, sobre 3,75% de mortalidade e o zebu indiano a 92% sobre 1,33% de mortalidade, unicamente.

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BOLETIM TÉCNICO INFORMATIVO – OUTUBRO/1981

O Coronel Carlos Lyra e a introdução do Zebú no Estado de Alagoas,

por Teógenes Augusto de Barros

Procuramos fontes que nos fossem possível estabelecer uma idéia acerca da introdução do zebú neste Estado e, por conseguinte o início propriamente dito da criação animal em Alagoas. Dize-mos desta maneira porque — já bem nos diz Otávio Domingos que “criar é melhorar”.

A pecuária alagoana até 1915, era constituida de exemplares denominados crioulos, hoje ainda abundantes em determinados lugares.

O fenótipo destes animais era dos mais precários imagináveis. De pelagens berrantes que variavam do vermelho escuro ao chocolate, tinham as vezes também o corpo recoberto por listas mal formadas escuras em fundo amarelo. Seu aspecto fisico dava uma idéia de atrofiamento. Não apresentando precocidade, o seu rendimento econômico era quase nulo. O peso normal de um animal adulto desse tipo, era no máximo 15 arrobas.

O Dr. Humberto Lyra conta-nos que seu saudoso genitor era dos poucos que ainda acreditava no estabelecimento de uma indústria pastoril – com 10 % de lucro, do capital empregado.

Vemos, por esta afirmativa, que as condições daquela época não permitiam aventuras na arte de criar, porque a matéria prima era deficiente.

O coronel Zacarias Lyra, pai do Dr. Humberto Lyra, acreditava numa zootécnia à base de um melhoramento racial. Tinha o mesmo avançadas idéias para o nordeste, quando todos se descuravam por completo o assunto. O lema era plantar e colher.

Inspirado talvez pelo seu irmão Zacarias, o coronel Carlos Lyra, proprietário então da Usina Serra Grande, localizada em São José da Lage, foi pessoalmente conhecer centros pastoris do país, situados em Minas Gerais e Mato Grosso.

Tão entusiasmado ficou o coronel, que, em um interessante livro denominado “Notas de Viagem”, publicado em 1918, dizia entre outras coisas, o seguinte: – A publicação destas notas não têm outro intúito, senão de chamar atenção da laboriosa classe dos lavradores e criadores do norte, a cujo número me ufano de pertencer, para o probelma da pecuária até hoje tão descurado nesta parte do Brasil.

A introdução racional entre nós do legitimo gado zebú que tão esmagadoras provas de superioridade está oferecendo no Triângulo Mineiro, — afigura-se o meio prático de elevar os estados do norte ao nivel de prosperidade que devemos almejar, não somente para nós, num futuro proximo, como para as gerações que nos sucederam.

Sou, por minha parte, um convencido de que, com o restabelecimento da concorrência mundial, a nossa indústria açucareira, ainda insuficientemente aparelhada por diversos motivos e circunstâncias, terá de enfrentar uma crise talvez mais dura e prolongada que as anterioes. Devemos portanto, estar preparados para compensar o esforço que em outras épocas temos perdido com os frutos seguros e de probabilidades muito mais lisongeiras da indústria pastoril.

Meditem os homens do norte neste assunto. Especialmente os que produzem e trabalham nos campos, desde o litoral até os mais remotos sertões e estou certo acabarão concordando comigo.

É esta a minha esperança: e nem mais valioso fruto espero para a modesta propaganda a que venho dedicando desde algum tempo uma parte da minha atividade de homem do campo, habituado desde a infância a ver o aproveitamento da terra, imensa e benfadada que Deus nos concedeu, a base indiscutível e eterna da prosperidade do “Brasil”

O ex-proprietário da Usina Serra Grande tinha a visão e o bom senso que faziam dos homens sobressairem-se uns dos outros e figurar na galeria daqueles considerados úteis à sociedade. O que ele dizia, hoje vemos. O que ele sentia é a realidade dos dias atuais.

A industrialização da cana de açucar está, nos nossos dias, em situação precária, dada a fatores que determinam menor rendi- mento, maior preço e melhor mercado. E nesta época, para a cria- ção animal que os homens dos campos, agricultores e fazendeiros lançam ainda um olhar de confiança.

Mesmo que fujamos à historia, achamos que o coronel Carlos Benigno Pereira de Lyra foi quem, com maior arrojo introduziu animais zebú no Estado de Alagoas.

Outros poderiam ter idéias ou consumando-as em realidade. Porém a ação marcante, dentro da técnica, coube ao inolvidável proprietário da Usina Serra Grande, que, ainda nas suas “Notas de Viagem”, dizia: “Não devo concluir estas ligeiras notas, sem pedir vênia ao leitor para registrar a tentativa que estou fazendo em prol da introdução racional desta raça previlegiada no nordeste brasileiro que nela poderá encontrar, num futuro próximo, um dos mais poderosos elementos da sua prosperidade econômica “.

A introdução inicial realizada, foi de dois reprodutores – comprados um deles por doze contos de reis, na primeira Exposição Nacional de Pecuária, em maio de 1916.

Um chamava-se “Bijou ” era da raça Guzerat e outro “Guarany”, um Nelore campeão.

Por sessenta contos mais ou menos – o coronel Carlos Lyra comprou 34 cabeças, das quais 12 machos e 22 fêmeas, lote este que posteriormente serviu de base de implantação do puro sangue zebú nas plagas alagoanas.

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No dia em que Bijou morreu.

por Fernando Galvão de Fontes

Na história da introdução do gado zebú no nordeste, um nome ficou para sempre: Bijou. Era um Guzerá soberbo, adquirido pelo Coronel Carlos Lyra, no sul do país, pela avultada importância de doze contos de réis! Junto com ele, um representante da raça nelore – o Guarani, formando, com 35 garrotas selecionadas um plantel de gado indiano – orgulho da florescente organização que era, à época, a Serra Grande.

Guaraní, apesar da importância que teve, igualmente, pelo melhoramento genético no rebanho nordestino, (custou, à época, seis contos-de-réis!) dele não se guarda as histórias e as referências do velho Bijou, ambos tratados, com desvelo, por Manoel Lúcio e Vicente Apolinário, em estábulo apropriado, junto ao qual pela primeira vez em nossa região, foi praticado com técnica, o ensilamento de capim: tudo isto graças à visão privilegiada do Coronel Carlos Lyra.

Da viagem do Coronel ao Sul, a fim de observar o manejo com o gado indiano, no Brasil, ocasião em que se fez acompanhar de um jornalista do “Diário de Pernambuco”, para elaboração de um relatório (origem de livro, hoje raríssimo!) – conta-se ter perdido um trem de passageiros, em São Paulo, por estar numa cadeira de engraxate, conversando displicentemente; e, mesmo sendo alertado que o trem estava prestes a deixar a estação, nem por isto interrompeu a prosa; pois bem – como a composição partiu, ele teria fretado um carro de passageiros, um de restaurante, e, atrelados a uma locomotiva que fez o percurso direto para a capital, lá chegou antes do trem que perdera.

O sucesso com a importação daquele plantel foi total, e não somente em Alagoas – mas em Pernambuco, igualmente, os criadores valorizavam, muitíssimo, qualquer touro que fosse descendente de Bijou; na região de Timbauba, por exemplo, (colhemos depoimento recente neste sentido, do Dr. José Clovis) – reprodutor bom era aquele que tivesse vindo da Serra Grande! Com efeito, o Coronel instalou, próximo a Recife, na localidade Ipiranga, uma fazenda que se constituía amostra permanente de seu selecionado plantel; e, em Alagoas, mais próximas à Usina – estavam as fazendas “Guzerat” e “Várzea Bonita” – esta administrada, em regime de sociedade, pelo Capitão Feliciano Lyra. A casa-grande desta fazenda, mais próxima a Lage, hoje está situada no perímetro urbano da cidade, e é atualmente onde funciona o Grupo Escolar Benício Barbosa. Conta-se mesmo deitadas sobre a linha da Great Western, os empregados desta ferrovia interrompiam o tráfego das composições a fim de, pacientemente, tanger o gado…

Das fazendas da Serra Grande, na década de vinte podemos afirmar, com certeza, ter sido a origem de todo o gado, bom e escolhido – que se espalhou pelo nordeste. Tanto nelore, como guzerat: até os mestiços alcançavam preços surpreendentes, pois o melhoramento genético estava à vista!

Lembro o velho Bijou, já nos seus últimos tempos, solto a andar por onde bem lhe aprouvesse. Ali pela esplanada da Usina, respeitadíssimo por todo o pessoal, tinha os seus grandes dias, aos sábados – dias de feira: comia jacas, espalhava montes de mangas, experimentava espigas de milho verde. Bijou tinha liberdade total; os vendedores de frutas das feiras de Serra Grande nada perdiam… Era só chegarem até o escritório de campo da Usina, procuravam o major Waldemar, formulavam suas queixas, e de imediato recebiam o pagamento dos estragos feitos pelo velho touro…

No dia em que Bijou morreu, lá um tanto distante, no sítio Bom Jesus, estava Antônio Felinto com uma numerosa turma de pedreiros e ajudantes, empenhados na reforma da casa-grande, por autorização do Dr. Salvador; é quando chega, muito excitado, um caboclo a anunciar que o velho Bijou tinha morrido.

Não tiveram dúvida: juntaram o dinheiro que foi possível, correram a Lage, todo o mundo jogou em touro. E, a duas da tarde, hora certa quando o telégrafo confirmava o bicho do dia… “Deu” touro, mesmo.

Houve uma correria geral à “banca”, quando o dono da mesma, sob a alegação de que “o rádio da Usina tinha dado o bicho antes da hora de sempre…” decidiu que não pagaria nada a ninguém.

Ameaçado de ser entregue à política, o “bicheiro” argumentou que também não tinha aquele dinheiro todo – pelo que, conforme conta Antônio Felinto, agora, por carta a nós – uns trinta anos depois! – os prejudicados, procuraram o Delegado; aí deu sorte para o bicheiro, pois, àquela hora, toda a polícia estava ausente da Lage, numa diligência em Valparaíso: quando os apostadores voltaram à cidade, a casa estava fechada, e o concessionário do jogo-do-bicho havia desaparecido!

A compra dos animais acima mencionados foi realizada em julho de 1916, chegando ao Recife pelo navio Itatiba no dia 03 de setembro do mesmo ano, tendo Bijou morrido no ano de 1930.

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O Gado Ongole (Nelore) –Padrão Indiano

Traduzido por Fernando José da Rocha Cavalcanti do

Boletim nº 27 do “The Indian (ex-Imperial) Council of Agriculture Research”

LOCALIZAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO

O lugar de origem desta raça é aquele conhecido como a zona de Ongole da Presidência de Madras. Esta região compreende o Ongole, o Guntur e Narasaraopet. Abrange ainda partes dos “taluks” de Bapatla, Sathenapalli, Venukonda e Kundukur nos distritos de Nelore e Guntur. Grande número de especimes desta raça são encontrados por toda a região, mas os animais dos dois últimos “taluks” são de menor tamanho, se bem que muito rústicos. O gado Ongole é criado principalmente pelos lavradores. e quando recriados em pastagens bem desenvolvidas e com os residuos de cereais produzidos na fértil zona de Ongole, dão animais particularmente bons.

No passado, o gado Ongole foi exportado para a América tropical e outras regiões em larga escala. principalmente para melhorar o gado local, e em algumas destas regiões são mantidos atualmente rebanhos de gado puro sangue Ongole para fornecer touros destinados ao melhoramento do gado local de origem européia. Como todo gado Zebu, sua grande resistência às doenças provocadas por parasitas e a sua capacidade de prosperar em pastagens escassas e sêcas tem demonstrado ser de grande valor fora da India na formação de raças de gado de corte capazes de desenvolverem-se nas condições tropicais e gado com diversas proporções de sangue Ongole está sendo extensamente criado em tais regiões.

O gado Ongole é tão apto para o trabalho quanto para a produção leiteira. É geralmente dócil, e seus bois muito possantes, apropriados para a aração pesada e para o transporte, mas não são comumente usados nos trabalhos rápidos. A produção de leite, em rebanhos bem cuidados atinge uma média de 1.600 quilos por lactação, conquanto existam recordes individuais que alcançam até 3.250 quilos.

DESCRIÇÃO DO ANIMAL ONGOLE TÍPICO

1 – CARACTERÍSTlCAS GERAIS

O Ongole é um animal grande e pesado. Os machos adultos pesam de 550 a 700 quilos e as fêmeas de 430 a 450 quilos. Tem o corpo comprido, o pescoço curto, os membros longos e musculosos, as pernas e os pés fortes e secos, com as unhas das mãos dirigidas para fora e a curva do jarrete nem muito direita nem muito curvada.

A aparência geral é viva, mas dócil, com bonito conjunto e porte. A côr mais comum é a branca. O macho tem manchas cinza-escuras na cabeça, pescoço e cupim e marcas pretas nos joelhos e nos presunhos dos membros anteriores e posteriores. Animais vermelhos e vermelhos e brancos de caracterização típica são encontrados algumas vezes.

2 – CABEÇA

Testa – A testa é larga entre os olhos e ligeiramente proeminente.

Face e focinho – A face é moderadamente longa, sem concavidades nas têmporas. O chanfro é reto. O focinho é bem desenvolvido, de cor preta e com as ventas bem amplas. Os maxilares são largos na base, bem musculosos e fortes.

Olhos – Os olhos são moderadamente compridos, plácidos, cheios e brilhantes. Tem forma eliptíca, com cilios pretos e são cercados por uma auréola de pele preta com uma largura de 6,5 a 12,5 cms.

Orelhas – As orelhas são moderadamente longas, ligeiramente pendentes e revestídas internamente com um pêlo fino e sedoso.

Chifres – Os chifres são curtos e atarracados, crescendo para fora e para trás, grossos na base e compactos, sem quebraduras.

3 – CORPO E MEMBROS

I) – Quartos Dianteiros –

Pescoço – O pescoço é curto e grosso no macho e moderadamente longo na fêmea. Na junção com a cabeça é liso e delicado e une-se suavemente com as espáduas.

Cupim – Bem desenvolvido e firme, cheio na parte superior e em ambos os lados, sem concavidades; não pende para nenhum dos lados.

BarbeIa – Grossa e caindo em pregas, extendendo-se até a dobra do umbigo. Nas fêmeas as pregas são cobertas por pêlos finos e macios.

Tórax – O tórax é amplo e profundo, largo entre os membros anteriores.

Pernas e espáduas – As pernas são fortes e sêcas, de compri- mento médio. São bem afastadas e firmes, colocadas retangularmente sob o corpo, as unhas apontam para fora. Os membros anteriores são afastados, fortes e afunilados. As espáduas são longas, obliquas e cônicas; firme e delicadamente ligadas ao tronco; largas e cheias dos lados.

II) Tronco

O tronco é comprido e profundo, com costelas bem arqueadas. Dorso – O dorso é moderadamente comprido, largo e levemente elevado em direção à garupa. Vista por trás a bacia deverá estar em nivel com o sacro e não inclinada. A linha que corre do sacro para a base da cauda deve ser moderada e não proeminente.

Costelas – As costelas são longas e bem arqueadas.

Umbigo – Nas vacas a dobra do umbigo é comum e pendente.

IlI) Quartos traseiros –

Lombo e anca – Os lombos são largos, fortes e ligeiramente inclinados para as ancas. As pontas das ancas são levemente salientes.

Garupa e ísquios – A garupa é bastante comprida, larga e ligeiramente inclinada para a inserção da cauda. Os ísquios são bem separados.

Francos – Os francos são profundos e cheios.

Coxas, colchão, culote -As coxas são grossas e bem desenvolvidas; são retas e musculosas por trás.

Cauda – A inserção da cauda é Inclinada, bem encaixada e delicada: a cauda é comprida e fina, a vassoura preta e não multo espessa. A última vértebra da cauda alcança justamente a ponta dos jarretes.

Jarretes, pernas e cascos – Os jarretes são secos e os presunhos Inclinados. Os pés são quase redondos e largos nos calcanhares. Os cascos são pretos e com fenda estreita.

4 – ÚBERE, TETAS E VEIAS LEITEIRAS

O úbere é amplo e bem extendido. para frente e para cima, entre as pernas traseiras. Os quartos do úbere são Iguais e de tamanho moderado. A contextura do úbere é fina, macia e flexivel, com pele de côr clara. As tetas são de tamanho médio, simétricas e bem colocadas sob cada quarto. O úbere tem pequenas veias bem definidas, e as veias mamárias são grossas e ramificadas.

5 – PELE, PÊLO E ESCUDO

A pele é de grossura média, macia e elástica e muitas vezes apresenta pontuações e manchas (despigmentações). O pêlo é fino e branco.

PONTOS DE DESCLASSIFICAÇÃO DO ONGOLE

1. Côr Vermelha ou manchas vermelhas no corpo.

2. Vassoura branca.

3. Cilios brancos.

4. Focinho róseo.

5. Cascos claros.

6. Não é desejável que o esfumaçado dos quartos traseiros seja multo escuro.

7. Manchas com a aparência de borrões pelo tronco.

Os padrões indianos para as raças zebuinas foram estabelecidos em 1938 por uma comissão composta dos técnicos: Col. Sir Arthur Olver. Mr. Zal R. Kothavalla, Mr. M. Wynne Sayer. Mr. E. J. Bruen. Capt. R. W. Litlewood, o capt. U. W. F. Walker e Mr. F. Ware. O padrão Ongole (Nelore) foi organizado sob a direção imediata do Captº R. W. Llttlewood.